
Tenho uma amiga, quase uma filha do coração, e por ela dou comigo a vivenciar sentimentos e sensações que se ela não existisse talvez me passassem ao lado …
Obrigado a ela …
Ler a “Floresta do Alheamento” abriu-me as portas, para aí da minha 4ª, 5ª visão, sobre o que poderá ser, ou a própria ausência disso mesmo, o encarar a “realidade” de um novo dia …
“Sei Que Despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver, diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me não sei por quê... Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar a dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é esse...
Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me.
Surge, mas não apaga esta, esta alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas [...]
De vez em quando pela floresta, onde de longe me vejo e sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou actual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de nocturna [...]
Suponho, portanto, que todas as coisas que vejo são falsas: persuado-me de que jamais existiu de tudo quanto minha memória repleta de mentiras me representa... creio que o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são apenas ficção de meu espírito... Mas eu me persuadi de que nada existia no mundo... portanto, de que eu não existia? …
…. “após ter pensado bastante nisto e de ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a anuncio ou que a concebo em meu espírito” …
… “Ó felicidade baça... O eterno estar no bifurcar dos caminhos! [...]
Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém... E talvez eu não seja senão um sonho desse alguém que não existe.”…
“Sou todo confusão quieta... Para que há de um dia raiar? E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo perguntar?
Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho?"....
Fernando Pessoa, como tantos nós, simples mortais, era portador de dúvidas tão maiores e tão sem resolução, que pelo contrário, trazem-nos ainda mais incertezas de uma possível não existência, onde as coisas reais, materiais …. será que existem? Andam por onde … o antagonismo, a indecisão em face à vida, os sentimentos dúbios causados pelas percepções e sensações são anunciados e denunciados a todo instante.
Ler e reler Pessoa, é uma descoberta contínua …. vão à descoberta … vale tanto a pena …